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Por que o Alaketu ainda sofre?

quinta-feira, 16 de março de 2017

No mês em que se comemora e exalta às mulheres, completam-se 90 dias da tragédia e as mazelas ainda se fazem presentes. De quais mulheres estamos falando?

 

Na madrugada do dia 2 de dezembro, o Terreiro Ilê Asé Maroialaji, localizado no bairro Luis Anselmo, foi surpreendido com a queda de uma das suas árvores centenárias, o que provocou um desastre com a danificação e soterramento de edificações vizinhas e o falecimento de uma senhora, que também era frequentadora do espaço religioso. O Conselho Regional de Psicologia – CRP03 foi convidado, juntamente com outros órgãos, a participar de visita técnica.

Na ocasião estiveram presentes a técnica Magnair Barbosa, Subgerente de Projetos da Gerência de Sítios históricos representante da Fundação Gregório de Matos da Prefeitura de Salvador; a conselheira e vice-presidenta, Alessandra Almeida e o Conselheiro da Comissão de Direitos Humanos, Djean Ribeiro, ambos do Conselho Regional de Psicologia da Bahia; Freitas Madiba, presidente e conselheiro, e Ana Vaneska, Conselheira responsável pela Câmara de Patrimônio Imaterial, ambos do Conselho Estadual de Cultura. Estiveram presentes também, representando o Terreiro conhecido como Terreito Alaketu, a Yá Kekere Jocenilda Bispo e a Iyá Atinsa Suzane Barbosa.

O terreiro Ilê Asé Maroialaji, de tradição litúrgica de origem Ketu, tombado pelo IPHAN desde 2004, foi fundado no século XVII em meados de 1636, de acordo com o antropólogo Renato da Silveira, sendo um dos mais antigos espaços de profusão de religião de matriz africana do país. Em suas lideranças já passaram diversas mulheres negras ilustres, a exemplo da própria Olga de Alaketu, responsáveis por inúmeras contribuições sociais, políticas, culturais para a população negra e periférica. Esses espaços despontam como importante lócus de produção de subjetividade positiva e resistência política no combate a discriminações e violências de várias ordens, além de promotor de saúde, como aponta a Drª em Psicologia Sônia Lages.

Apesar de diversas instituições se fazerem presentes no processo de resolução do incidente, já perdura por demais seu fim. Mesmo com empresa contratada e custeada para a realização da intervenção, percebe-se uma postergação institucional, o que resulta em diversos danos e impactos ao espaço religioso e seu calendário litúrgico, que está sendo penalizado pela letargia institucional. 

A queda dessa árvore sagrada, dentro de um imóvel tombado pelo IPHAN, devido a seu reconhecimento histórico, material e imaterial, desvela um quadro de racismo institucional, que historicamente é endereçado às religiões de matrizes africanas, principais alvos de intolerância religiosa, de acordo com Alexandre Gualberto no Mapa da Intolerância religiosa no Brasil.

Na condição de promotor de Direitos Humanos, o Conselho Regional de Psicologia, vem por meio desta nota, estarrecidos com tamanha negligência com um espaço fomentador e sedimentador de identidades da população negra, questionamos, por que o Alaketu ainda sofre? No mês em que se comemora e exalta às mulheres, completam-se 90 dias da tragédia e as mazelas ainda se fazem presentes. De quais mulheres estamos falando?

Repudiamos a omissão das diversas instâncias envolvidas, que vitimam simbolicamente representações culturais e religiosas da população negra, desencadeando impactos na saúde mental dos integrantes do terreiro e circunvizinhos. Ressaltamos, acima de tudo, nosso caráter laico, princípio constitucional, ao qual se baseia esta atuação crítica e atenta ao desenvolvimento social e equânime da sociedade.