Publicado em 03 novembro de 2026 às 14:29
A Bahia tem vivenciado, nos últimos meses, manifestações climáticas que convocam a sociedade e o poder público a ampliar a atenção aos riscos, à proteção da vida e às condições de existência nos diferentes territórios do estado. Recentemente, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) alertou que os próximos dias serão marcados por calor intenso, baixa umidade do ar, estiagem e pouca possibilidade de chuva em grande parte do território baiano. Em contraste, outras regiões poderão registrar chuvas intensas, alagamentos e deslizamentos de terra, especialmente no litoral sul, evidenciando os riscos associados à ocorrência de grandes volumes de precipitação em curtos períodos.
Esses acontecimentos não devem ser compreendidos como episódios isolados ou reduzidos a uma sucessão de fenômenos naturais. Eles exigem atenção às relações entre mudanças climáticas, condições ambientais, desigualdades sociais, ocupação do território, infraestrutura urbana e rural e capacidade de prevenção e resposta do poder público. A ocorrência de extremos climáticos não produz os mesmos efeitos para todas as pessoas: as condições de moradia, o acesso à água, a segurança alimentar, a possibilidade de deslocamento, a proteção social e o acesso aos serviços públicos interferem diretamente na exposição aos riscos, as consequências negativas decorrentes das ocorrências traumáticas, e nas possibilidades de enfrentamento que tragam resultados positivos.
O cenário também precisa ser analisado no contexto do aquecimento global e da variabilidade climática. Recentemente, tem sido discutido sobre o “El Niño”, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial, que pode modificar os padrões de circulação atmosférica e influenciar a distribuição das chuvas e das temperaturas. Entretanto, seus efeitos variam conforme a região e interagem com outros fatores atmosféricos e ambientais.
O calor extremo e as chuvas intensas também são questões de saúde, cuidado e proteção psicossocial. O calor persistente agravar condições de saúde, (produzindo exaustão e dificuldades respiratórias diversas). A escassez de água, as perdas na produção de alimentos, os impactos sobre o trabalho e a impossibilidade de manter ambientes domésticos termicamente confortáveis ampliam as dificuldades cotidianas. Nas situações de chuva intensa, alagamentos e deslizamentos, somam-se os riscos à integridade física, as perdas materiais e simbólicas, a ameaça à moradia, os deslocamentos forçados, as interrupções de serviços e a insegurança quanto ao futuro.
Essas experiências podem produzir ou intensificar medo, angústia, desorientação, sofrimento, luto e rupturas nos vínculos comunitários. A recuperação pode exigir acompanhamento continuado, reconstrução das condições de vida, restabelecimento de redes de apoio e garantia de direitos. Reconhecer essa dimensão não significa patologizar reações humanas diante de situações extremas, mas compreender que o sofrimento também é produzido pelas condições sociais e materiais em que as pessoas vivem, suas nuances e respectivas consequências na vida individual e coletiva.
Também é necessário destacar os impactos desses eventos sobre os trabalhadores e trabalhadoras que atuam na linha de frente das respostas às emergências e desastres. Profissionais da saúde, assistência social, educação, defesa civil, segurança pública e demais serviços essenciais frequentemente enfrentam jornadas prolongadas, sobrecarga física e emocional, escassez de recursos e exposição contínua a situações de sofrimento humano. O esgotamento desses trabalhadores pode comprometer sua saúde e afetar a continuidade e a qualidade dos serviços prestados à população, reforçando a necessidade de cuidados institucionais e condições adequadas de trabalho.
É fundamental, ainda, reconhecer que os riscos e os impactos climáticos são socialmente desiguais. Populações indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, populações negras, pessoas que vivem em periferias urbanas, áreas rurais e territórios sujeitos a inundações ou à escassez hídrica podem enfrentar vulnerabilidades específicas, historicamente construídas e assim exigem maior cuidado e atenção das autoridades frente suas vulnerabilidades.
A Psicologia dos Riscos, Emergências e Desastres é uma subárea especializada da Psicologia voltada para o estudo, a compreensão e a intervenção psicossocial diante de eventos críticos, e potencialmente traumáticos que ameaçam a integridade física e emocional de indivíduos e coletividades. Trata-se de uma gestão integral de riscos importante e de caráter imediato. Faz-se necessária uma atuação sob uma perspectiva sistêmica e de direitos humanos, tendo como objetivo buscar meios para a superação individual e comunitária, aliviar o sofrimento psíquico imediato e evitar a cronificação de transtornos psicológicos severos, decorrentes de vivências traumáticas e catastróficas.
Diante desse contexto, a Comissão de Psicologia, Riscos, Emergências e Desastres do Conselho Regional de Psicologia da Bahia (COMPED/CRP-03) destaca a importância de fortalecer o debate, a prevenção, a preparação, a resposta e a recuperação diante dos eventos climáticos, articulando Psicologia, saúde, assistência social, educação, políticas ambientais, órgãos de proteção e defesa civil. A atuação profissional deve estar comprometida com a dignidade humana, a defesa dos direitos fundamentais e o enfrentamento das desigualdades que ampliam os riscos e dificultam a recuperação das populações atingidas.
À sociedade, orientamos:
- Acompanhar os alertas e as recomendações oficiais da Defesa Civil e dos órgãos meteorológicos, considerando as particularidades de cada município.
- Durante períodos de calor intenso, manter hidratação frequente, reduzir a exposição ao sol e os esforços físicos nas horas mais quentes e buscar ambientes mais frescos, sobretudo para crianças, pessoas idosas, gestantes e pessoas com condições crônicas de saúde.
- Em períodos de baixa umidade, redobrar os cuidados com a hidratação e evitar atividades físicas intensas nos horários mais secos.
- Diante de alertas de chuva intensa, evitar atravessar ruas alagadas, não se abrigar sob árvores durante tempestades e não permanecer em encostas com sinais de instabilidade. Em situações de risco, seguir as orientações das autoridades e buscar um local seguro.
- Acionar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193 em situação de emergência, conforme a necessidade.
- Fortalecer as redes comunitárias de apoio, observando as necessidades de pessoas que vivem sozinhas, apresentam mobilidade reduzida ou encontram dificuldades para acessar serviços e recursos de proteção.
Às psicólogas e aos psicólogos, convocamos:
- Incorporar os riscos climáticos e seus impactos psicossociais ao planejamento das ações profissionais, especialmente nos territórios mais expostos.
- Atuar em articulação com o SUS, o SUAS, a educação, a Proteção e Defesa Civil e demais políticas públicas, respeitando as atribuições de cada setor e evitando intervenções isoladas ou desarticuladas.
- Participar, conforme as atribuições profissionais e as possibilidades institucionais, da elaboração e atualização dos planos de contingência e das estratégias locais de prevenção e resposta, a partir da atuação intersetorial e multidisciplinar nas políticas públicas;
- Desenvolver práticas alinhadas a observância ao Código de Ética Profissional do Psicólogo e demais normativas e orientações técnicas vigentes.
- Considerar as desigualdades de raça, gênero, classe, geração, deficiência e pertencimento territorial na análise dos riscos e na organização das respostas.
- Respeitar a autonomia, os modos de vida, os conhecimentos tradicionais e a participação das comunidades, evitando práticas tutelares, intervenções invasivas e a desconsideração das redes de cuidado já existentes.
- Contribuir para a continuidade do cuidado no período posterior aos eventos, reconhecendo que a reconstrução das condições de vida e a recuperação psicossocial podem demandar acompanhamento prolongado.
A Psicologia não substitui as políticas públicas de prevenção, a infraestrutura necessária à proteção da população ou a responsabilidade do Estado na gestão dos riscos. Sua contribuição exige compromisso técnico, articulação intersetorial e posicionamento ético diante das condições que expõem determinadas populações a maiores danos.
A gestão integral e preventiva dos riscos e desastres precisa acontecer antes que a emergência se instale. Isso significa investir em planejamento, informação acessível, participação comunitária, proteção social, serviços públicos estruturados e estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Significa, também, não naturalizar a exposição cotidiana ao calor extremo, a precariedade habitacional, a insegurança hídrica ou a ausência de proteção diante de eventos previsíveis. Diante disso, a atuação dos psicólogos é fundamental diante de emergências climáticas, contribuindo para o acolhimento e a promoção da saúde mental da população afetada, o fortalecimento das redes de apoio e a reconstrução dos vínculos sociais afetados pelas emergências climáticas. Para que esse trabalho seja realizado de forma efetiva, é necessário valorizar a categoria e garantir condições dignas de trabalho, estrutura adequada e recursos para o exercício profissional, reconhecendo a importância da Psicologia nas políticas públicas e na proteção da população.
A COMPED/CRP-03 reafirma seu compromisso com uma Psicologia comprometida com a prevenção, a defesa dos direitos humanos, a atenção psicossocial e a construção de respostas públicas territorializadas diante das emergências, dos riscos e dos desastres.
Comissão de Psicologia, Riscos, Emergências e Desastres (COMPED)
Conselho Regional de Psicologia 3ª Região – Bahia (CRP-03)
Referências para consulta
Nota Técnica CFP nº 22/2024, do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Gestão Integral de Riscos, Emergências e Desastres.
Resolução CFP nº 12, de 7 de agosto de 2024.
Materiais indicados pela Biblioteca do CRP03:
https://drive.google.com/drive/folders/1-ehUfb7J03mzrPoRh9o6-wuviXUed__P
Código de Ética Profissional da/o Psicóloga/o
Relatório Regional: Atuação de psicólogas/os no contexto de emergências e desastres
O cuidado com crianças e adolescentes afetados por catástrofes
Primeiros socorros psicológicos
Atuação Profissional e Desastres: limites e recomendações
Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores de campo
Como comunicar más noticias: revisão bibliográfica
Luto e perdas repentinas: Contribuições da Terapia Cognitivo Comportamental
Treinamento de Primeiros Socorros Psicológicos: Manual para Cuidadores de Crianças
Primeiros Socorros Psicológicos: intervenção psicológica na catástrofe
Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores de campo
Implicações do Pronto-Atendimento Psicológico de Emergência aos que Vivenciam Perdas Significativas
Playlist do CFP: Atuação da Psicologia em Emergências e Desastres
Para consultar as demais Resoluções, Portarias, Instruções Normativas publicadas pelo CFP, a/o psicóloga/o deverá acessar: Atos Oficiais do Conselho Federal de Psicologia
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