Publicado em 20 fevereiro de 2026 às 23:46
CARTA ABERTA À CATEGORIA E SOCIEDADE
Uma reflexão sobre saúde mental e racismo
Que esta mensagem encontre cada uma e cada um com o mínimo de respiro possível em meio às urgências e exigências do cotidiano profissional. O Conselho Regional de Psicologia da 3ª Região (CRP-03/Bahia), na condição de Autarquia Pública Federal, vem a público suscitar e fortalecer reflexões acerca da saúde mental de psicólogas e psicólogos, bem como dos impactos do racismo na saúde integral de psicólogas e psicólogos negras/os.
Talvez esse seja um dos temas mais sensíveis e urgentes para nossa prática: o cuidado com a saúde mental de nossa própria categoria. Lidamos, quase diuturnamente, com demandas complexas, sofrimento intenso, crises e situações de risco. Contextos que, não raramente, nos fazem esquecer de um princípio fundamental: cuidar da vida também implica cuidar de quem cuida.
É necessário reafirmar que psicólogas e psicólogos são sujeitos historicamente situados, atravessados por condições materiais, institucionais e por múltiplos marcadores sociais. Estamos imersas/os em dinâmicas laborais, pressões produtivistas e encruzilhadas interseccionais que podem incidir diretamente sobre nossa saúde mental. Todavia, o conhecimento técnico e a formação especializada não nos tornam imunes ao sofrimento psíquico e ao adoecimento.
Essa compreensão nos convoca, enquanto categoria, a recusar a naturalização da sobrecarga, do isolamento e do sofrimento silencioso. Nenhuma política de cuidado, nenhuma ética profissional e nenhuma prática comprometida com a vida se sustentam quando quem cuida permanece sem suporte, sem proteção e sem espaço de escuta. Há momentos em que o sofrimento psíquico atravessa não apenas aquelas e aqueles que atendemos, mas também a nós mesmas/os. A experiência de dor emocional, exaustão, desesperança ou mesmo pensamentos sobre desistência e autoextermínio não anula nossa identidade profissional nem nos desautoriza como sujeitos éticos. Psicólogas e psicólogos não estão fora da condição humana que fundamenta, precisamente, o nosso trabalho.
Reconhecer o sofrimento não deve ser compreendido como fracasso, fraqueza ou incoerência com o exercício profissional. Ao contrário, trata-se de um gesto de lucidez, responsabilidade e cuidado de si. O Código de Ética Profissional (Resolução CFP nº 10/2005) explicita que o exercício da Psicologia deve ocorrer em condições que resguardem a qualidade técnica, o discernimento e a integridade de todas as partes envolvidas, incluindo a/o própria/o profissional.
Somos igualmente convocadas/os a refletir sobre as dimensões históricas e sociais que participam da produção do sofrimento psíquico, entre as quais o racismo ocupa lugar central e incontornável. A interseção entre racismo e saúde mental não constitui uma abstração teórica, mas uma realidade concreta que engendra vulnerabilidades, intensifica experiências de dor e pode elevar o risco de agravos psicológicos, incluindo situações de sofrimento extremo e risco de autoextermínio. Reconhecer essa articulação implica deslocar leituras estritamente individualizantes, situando o sofrimento nas condições sociais, políticas e institucionais que atravessam as trajetórias de vida.
Tal compreensão encontra sólido respaldo no campo das políticas públicas de saúde. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra estabelece como um de seus fundamentos o reconhecimento do racismo, das desigualdades étnico-raciais e do racismo institucional como determinantes sociais das condições de saúde. Ao afirmar essa diretriz, a política não apenas legitima os impactos psicossociais dessas violências, mas também orienta a promoção da equidade, o enfrentamento da discriminação e a qualificação das práticas de cuidado no âmbito do Sistema Único de Saúde, convocando profissionais e instituições a uma atuação ética, crítica e socialmente situada.
Inclusive, o enfrentamento do racismo não constitui um tema periférico ou opcional no exercício da Psicologia. Há uma exigência ética, técnica e política que atravessa o fazer profissional em quaisquer campos de atuação. A Resolução CFP nº 018/2002, que estabelece normas de atuação frente ao preconceito e à discriminação racial, demarca um posicionamento inequívoco da profissão: o racismo é incompatível com a ética psicológica e com os direitos humanos.
É igualmente indispensável reconhecer que o racismo atravessa também a própria categoria. Psicólogas e psicólogos pretas/os não estão protegidas/os das dinâmicas sociais que investigamos e enfrentamos profissionalmente. Ao contrário, muitas vezes vivenciam sobrecargas adicionais, solidão institucional, questionamentos de legitimidade e desgaste emocional cumulativo. O cuidado com a saúde mental desses profissionais não é questão individual ou privada, é tema ético e político da profissão.
Alguns movimentos mostram-se essenciais nesse debate:
- É fundamental legitimar o sofrimento sem estigmatização, reconhecendo que a dor psíquica associada às experiências de racismo não pode ser minimizada, desqualificada ou reduzida a uma dimensão estritamente individual;
- Torna-se igualmente necessário fortalecer redes de apoio e pertencimento, considerando que espaços de troca, supervisão, coletivos e articulações entre pares exercem uma função protetiva relevante frente às sobrecargas emocionais e institucionais;
- Impõe-se ainda a recusa à lógica da hipersuficiência, evitando que psicólogas e psicólogos pretas/os sejam capturadas/os pela expectativa de resistência permanente, invulnerabilidade ou desempenho excepcional como resposta às violências estruturais.
Paralelamente, é imprescindível promover ambientes institucionais seguros, nos quais gestões, serviços e equipes assumam responsabilidade ativa tanto na prevenção de violências quanto no reconhecimento dos efeitos concretos das desigualdades raciais. Do mesmo modo, é indispensável afirmar que o cuidado também constitui um direito de quem cuida, de modo que buscar suporte, acompanhamento psicológico e acolhimento não representa fragilidade profissional, mas um gesto ético de preservação da própria integridade e das condições de exercício da Psicologia.
O Conselho Regional de Psicologia da 3ª Região (CRP-03) reafirma seu compromisso institucional com as questões relativas à saúde mental da categoria e ao enfrentamento do racismo. Destaca, nesse âmbito, a atuação contínua das Comissão de Psicologia e Relações Raciais e da Comissão de Direitos Humanos, instâncias permanentes de escuta, reflexão crítica e proposição de ações, que têm promovido debates, eventos, atividades orientativas e iniciativas voltadas à qualificação do exercício profissional e à problematização dos efeitos psicossociais do racismo.
As ações desenvolvidas pelo CRP-03 buscam não apenas conferir visibilidade a essas temáticas, mas também fortalecer canais de diálogo com a categoria, reconhecendo a importância da escuta das experiências concretas vivenciadas por psicólogas e psicólogos. Esse compromisso se materializa na promoção de espaços coletivos de discussão, na produção de reflexões técnicas e na defesa de políticas públicas orientadas pela equidade, pela justiça social e pelo enfrentamento das desigualdades raciais.
Ratificamos a necessidade de que o Sistema Conselhos de Psicologia retome e fortaleça ações de aquilombamento, tais como a realização de plenárias negras e o aprimoramento de políticas institucionais de enfrentamento ao racismo no âmbito dos CRPs. ,esse contexto, destaca-se a relevância da atuação da Comissão de Orientação e Fiscalização (COF), especialmente no que se refere à adequada apuração e às devidas tratativas das denúncias de racismo recebidas.
Reitera, ainda, a importância da ampliação de espaços permanentes de diálogo, da promoção de eventos e de ações orientativas, bem como do fortalecimento das estratégias de incidência política em pautas legislativas de interesse da Psicologia. Tais movimentos configuram-se como dimensões essenciais para a consolidação de práticas institucionais comprometidas com a equidade, a justiça racial e a ética profissional.
Quando uma psicóloga ou um psicólogo, atravessada/o pelas manifestações cotidianas do racismo, perde sua vida, é o próprio tecido social que se vê violentamente rasgado. O racismo não constitui um evento isolado ou episódico; trata-se de uma estrutura histórica e social que opera de modo persistente, produzindo humilhações reiteradas, desqualificações simbólicas e processos de esgotamento subjetivo.
A partida prematura do psicólogo e psicanalista Manoel Rocha Reis Neto (CRP-03/18741), também sob a influência do racismo e de suas faces perversas, convoca-nos, de forma incontornável, a romper com o silêncio. Impõe-se à categoria e às instituições a recusa de qualquer forma de conivência com dinâmicas estruturais que produzem adoecimento, precarização e, em seus desfechos mais graves, a própria perda de vidas.
Escrevemos esta reflexão em luto, mas também em compromisso. Que este momento nos convoque, de maneira incontornável, à transformação de práticas, à revisão de estruturas e à sustentação concreta da defesa da vida, da dignidade, do Bem Viver, do cuidado coletivo e da justiça racial e social. Que esta carta se afirme igualmente como um gesto de memória: memória para que a violência racial não seja banalizada, naturalizada ou esquecida.
Que este compromisso se traduza em ações efetivas, de modo que o cuidado, a escuta e a responsabilidade institucional não permaneçam apenas como princípios declarados, mas se consolidem como práticas executáveis e eticamente sustentadas. O enfrentamento ao racismo configura-se, assim, como uma condição ética inegociável para a promoção da vida, da saúde mental e da qualidade das relações humanas.
Diante disso, o alerta é evidente: quando raça se cruza com desigualdades de renda, território, gênero, juventude, encarceramento, violência estatal, luto recorrente e precarização do trabalho, cria-se um cenário onde o sofrimento pode se intensificar, e onde a desesperança pode parecer “solução” quando, na verdade, é expressão de um mundo que falhou em proteger. A saída não é individualizar a dor. A resposta precisa ser coletiva e institucional.
O enfrentamento ao racismo e a luta pela promoção da equidade em saúde mental não são tarefas acessórias. Constituem dimensões estruturantes de uma Psicologia comprometida com a dignidade humana, com a justiça social e com a produção de cuidado ético. Que sigamos construindo práticas que não apenas rejeitem o racismo, mas que afirmem, concretamente, a vida, a subjetividade e a existência plena da população negra, dentro e fora da profissão.
Comissão de Direitos Humanos – CRP-03
Comissão de Psicologia e Relações Raciais – CRP-03
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